INADIMPLÊNCIA
Quando, após anos de luta ferrenha contra a inflação “galopante”, o Brasil alcançou a estabilidade na moeda, as pessoas ficaram com a impressão de que dali por diante seria tudo uma grande festa. Não sei se porque durante muitos anos a culpa de tudo era debitado na conta da inflação, a verdade é que gerou uma euforia consumista muito perigosa. Os mecanismos de crédito se permitiram prazos não imaginados durante a época da inflação e isso fez com que as pessoas se endividassem mais do que podiam e se atrapalhassem nesse planejamento de longo prazo. Não tinham experiência. Durante o período inflacionário era quase inútil para um consumidor planejar. As empresas mantinham vários profissionais para atender este item e mesmo assim o planejamento era de curtíssimo prazo e não raro, falho. Desde então um termo passou a ser utilizado com maior freqüência entre nós: Inadimplência. A rigor, este termo significa quebra de contrato, mas temos usado mais corriqueiramente para designar atrasos de pagamento. Que seja. Como temos falado sempre, a única forma de evitar esses embaraços de inadimplente, ou mesmo sair deles, é através do controle de gastos. Nossa receita normalmente é finita, conhecida e inelástica. Se há um lugar onde podemos agir é nas despesas, usando os instrumentos de finanças pessoais disponíveis. Existem desde simples tabelas até sofisticados softwares para auxiliar nesta tarefa. O ideal é fazer um curso que ensine os principais conceitos desta parte tão importante da ciência econômica, fixando os principais conceitos e formulações. O serviço da Telecheque, empresa que reúne um dos maiores bancos de dados sobre inadimplência no país pesquisou as principais razões da inadimplência. A seguir:
1. Descontrole nos gastos – 29%
2. Empréstimos de cheques – 13%
3. Atraso salarial – 12%
4. Desemprego – 9%Nos dois últimos itens pode-se dizer que o devedor não tem culpa, mas o dois primeiros tem a cara do dono. O Nº 1 é pura falta de organização e planejamento, em casos mais raros pode ser compulsão, uma espécie de doença consumista. O Nº 2 é confiança em excesso. A pessoa empresta uma folha de cheque para o parente ou amigo que já não tem crédito porque provavelmente costuma não pagar, e para não perder o costume também não vai pagar mais essa. Quem emprestou o cheque, provavelmente estará, em breve, pedindo um cheque a alguém. No ranking dos cheques devolvidos aparece em primeiro lugar o item telecomunicações. Isso se deve à compra de telefones celulares com cheques pré-datados, sobretudo em datas comemorativas, embrulhados para presente na onda das ‘barbadas’ das operadoras. Em segundo e terceiro lugares vem respectivamente Cosméticos/perfumaria e Roupas unisex. Ah, a vaidade. E nem se pode dizer que sejam de um sexo ou outro, pois no próximo quadro vamos ver que é praticamente equânime. Mas a verdade é que nesses dois pontos cabe um pouquinho daquela compulsão diante dos apelos da vaidade, do bem vestir do cuidado pessoal, do perfume, do creme anti-rugas, do bem apresentar-se diante de alguém . Afinal, guerra é guerra!
Perfil do inadimplente
• 51% dos inadimplentes são mulheres
• 41% casados
• 66% têm idade entre 21 a 40 anos
• 38% concluíram o Ensino Médio
• 50% se tornaram inadimplentes com compras entre R$ 50 e R$ 200
• Estados brasileiros que concentraram grande parte dos inadimplentes: São Paulo (20%), Rio de Janeiro (15%), Minas Gerais (12%), Rio Grande do Sul (7%) e Ceará (6%).Ou seja, qualquer apressado em concluir diria que paulista solteiro (a) de pouca instrução, entre 20 e 40 anos, comprando telefone celular barato é um perigo. Mas não é nada disso. Nosso assunto de inadimplência continua.
5-5-2006
Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br