Neuroeconomia
9-3-2006
Cada vez mais procuramos os motivos que nos levam tomar determinadas decisões e atitudes na nossa vida, de uma maneira geral. Na área econômica, mais do que especular, investiga-se o comportamento do homus economicus há séculos. Muito do que se sabe é resultado de estudos empíricos, ou seja, da observação ao longo de décadas e convertidas em gráficos, tabelas, equações, modelos, muitas vezes falhos geniais e em outras, falhos. Atualmente usa-se tomógrafos. Imagino que se coloque muito dinheiro nessas pesquisas, pois elas têm a função de desvendar os mistérios do comportamento humano frente às decisões econômicas, do tipo onde gastar, onde investir, quando, como e por quê. Quando tiverem algumas respostas, darão um dinheirão. Esta nova ciência, a neuroeconomia, cujos estudos determinam, a formação de uma equipe multidisciplinar na sua realização, incluindo economistas, psicólogos, médicos e outros que se atrevam, procura através da ressonância magnética mapear as atividades cerebrais durante exercícios e jogos econômicos especialmente criados para este fim. É possível saber, pelo menos teoricamente, qual a atitude presumível terá alguém quando sabemos que parte do cérebro ela utiliza naquele momento. Por exemplo: situações de curto prazo, valores imediatos, seja um dinheiro a receber imediatamente ou um bem desejado, ativam ou processam-se no sistema límbico, que comanda a emoção. O longo prazo, como investimentos, pagamentos futuros são processados no córtex pré-frontal, que é mais identificado à razão e ao cálculo. Isso imediatamente nos remete ao crédito que é nada além de uma armadilha cerebral. A decisão da compra é feita com base no julgamento do sistema límbico. Temos a recompensa imediata (o bem) e o ônus (o pagamento) é adiado, o que o sistema não reconhece. É como se o cérebro dissesse: Essa parte não é comigo. Passa no caixa amanhã.
Outro ponto fundamental que as pesquisas demonstram diz respeito à diferença de percepção do valor no tempo. Se for oferecido a uma pessoa R$ 1.000,00 hoje ou R$ 1.200,00 daqui a uma semana, é muito forte a probabilidade que ela escolha a primeira opção. Se for feita a oferta das mesmas quantias para daqui a um ano e um ano e uma semana, respectivamente, a pessoa reage com indiferença.
Estes estudos demonstraram que o ganhar e o perder ativam partes diferentes do cérebro. Em outras palavras, descobriu-se que ganhar uma determinada quantia em dinheiro não repõe uma perda do mesmo valor, ao menos psicologicamente. Mostrou que uma modificação no padrão de vida pode ser especialmente desagradável. Ser um novo pobre é uma coisa realmente desestabilizadora emocionalmente. Os valores envolvidos têm grande importância. As reações diferem quando aumentam ou diminuem as quantias, reagindo de forma distinta, o cérebro. A expectativa de ganhar ou perder é de suma importância. Nos jogos econômicos que necessitava da avaliação em relação à confiança e fraude, onde um jogador tenta fazer a melhor jogada e antecipar a jogada do adversário, as duas áreas do cérebro atuam em colaboração, coordenadas.
Esses estudos querem chegar no ponto de descobrir como age o cérebro na hora de tomar decisões de investir, como ele escolhe determinados ativos em detrimento de outros, quais e por que escolheu tais ações em vez de outras. Deixaremos de ser um mistério econômico? Seremos previsíveis e supostamente controláveis? Em primeiro lugar os estudos estão no início, como tudo que diz respeito ao cérebro. Depois, mesmo que apontem em determinada direção, nossas individualidades, aliá como sempre, não deixarão de estragar esta homogeneização esperada do comportamento. Nós sempre estragamos este tipo de festa. As pesquisas, no entanto, tem extremo valor como instrumento de uma ciência humana e sua função de nos conhecer melhor.
Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br