12-11-2005
FINAL DE ANOTodo final de ano retorna o dilema sobre como melhor aproveitar o décimo terceiro. Este reforço de renda a que o trabalhador formal tem direito a cada fim de ano se transforma na alegria e alívio do lojista e do fabricante, uma vez que embora tenham seus faturamentos engordados, tem também sua folha de pagamentos mais pesada justamente em função do 13º, sem contar outros gastos de fim de ano, entre presentes, festas e achaques. Ocorre que presentes , festas e achaques não são exclusividade do empresário. Todos, e de uma forma mais contundente os cristãos, são vítimas da fúria do Papai Noel e do mau humor dos parentes não contemplados com os melhores presentes. Mesmo aqueles que não professam esta fé, como judeus e muçulmanos, não estão imunes aos apelos da publicidade, principalmente as crianças. Então, essa nossa conversa sobre décimo terceiro salário, serve para todos.
O marketing de natal é muito forte e procura nos pegar pelo lado sentimental. Fica muito difícil trancar o bolso na hora do presente do filho ou da namorada nova de quem passou o ano correndo atrás. Mas consumidor sentimental tem a peculiaridade de emocionar-se duas vezes. Em Março ele vai chorar de novo, porque junto com o material escolar, impostos, IPVA, gastos de férias, estarão vencendo aquelas comprinhas de natal com cheque pré-datado para 90 dias da promoção “imperdível”. Março é o mês com a maior inadimplência do ano. E veja só os campeões:
1º lugar: Cheques-pré-datados
2º lugar: Cartões de crédito e financeiras
3º lugar: Bancos
Realmente é emocionante.
Mas é aí que entra o 13º salário. Use-o para tornar sua vida mais tranquila de agora em diante. Coloque as prioridades:1. Pagar dívidas pendentes
É inconcebível rolar as dívidas existents e usar este caixa extra para comprar mimos de natal. Os juros no Brasil são exorbitantes, não importa em que modalidade seja a dívida. Se for um cheque especial ou cartão de crédito, pior ainda. Essas taxas chegam a 10% ao mês no caso do cartão e 8% ao mês no cheque especial. Veja o que acontece se você ficar devendo R$ 1.000,00 durante um ano no cheque especial. Os juros acumulam em 157% e os mil reais que você pegou emprestado viram R$ 2.571,00. O rotativo do cartão lhe proporciona juros de 224% ao ano. Assim, a menos que você já esteja naquela fase de rasgar dinheiro, coloque seu 13º a serviço da racionalidade. Não esqueça de pagar primeiro as dívidas com juros mais altos e que não tenha como barganhar, provavelmente serão as que poderão lhe dar problemas de crédito. As que for possível barganhar,barganhe, ainda mais com dinheiro na mão, mas pague, mesmo que uma parte a cada credor. Se você tomou um dinheirinho emprestado do seu cunhado, por exemplo, dê o ar de sua graça e alcance algum por conta do papagaio informal, afinal , cunhado não é parente, não tem o seu sangue mas tem memória. Você pode precisar de novo e esse tipo de crédito caseiro sempre pode salvar.
2. Reservar para as despesas de início de ano
É importante deixar uma reserva para fazer frente aos gastos que virão no início do ano letivo. Nesta fase chegam as despesas com material escolar, para quem estuda ou tem filhos que estudam. É o momento de pagar IPVA, IPTU e se puder pagar à vista , os descontos são realmente compensadores, em torno de 20%. Provavelmente haverão despesas de férias, entre outras. Se você não tinha dívidas, ou depois de saldá-las sobrou alguma parte do seu 13º, use-o prevenindo estas despesas, garantindo que não precisará torturar e esticar seus próximos salários ou pior, endividar-se em função disto, caindo na roda viva dos juros altos.
3. Poupe e invista
Se depois de pagar as dívidas e fazer a previsão para os gastos do início do ano houver ainda algum caixa, pense em colocar este recurso para render. Como nem sempre temos à mão o que precisamos para comprar um bem de maior valor que queremos, o 13º vem ajudar na realização do sonho, sem que precisemos lançar mão de crédito a juros altos. Se não pelo sonho, o investimento é mais do que válido pela segurança que proporciona.
4. Papai Noel
Algumas pessoas tem pavor do natal. Desde que esta festa distanciou-se de sua original razão para tornar-se uma festa do consumo, não raro transforma-se mais num transtorno do que num momento de reflexão em que comemora-se o nascimento do Cristo. Essa função toda em torno de presentes e exigências novas que viram tradição de um ano para o outro geram um stress coletivo que muitas vezes transborda na noite de natal. Não é à toa que um enorme número de pessoas entram em depressão, sendo uma das datas de maior ocorrência de suicídios. Muitos podem definir o natal como “Dois meses de expectativa para uma noite em que nos reunimos com os parentes para reabrirmos velhas feridas e passarmos outros seis meses lamentando as prestações”. Credo, não será exagero? É preciso relevar, afinal o que vale é a intenção.
Enquanto não se chega a um patamar razoável, o melhor é ir devagar. Reserve uma parte pequena para comprar os presentes indispensáveis. Estabeleça um limite e um critério. O natal é a época em que a gente compra o que não pode para receber em troca o que não precisa. Evite as trocas de presentes desnecessárias. Mesmo em família estabeleça o “Amigo oculto”. Não faça dívidas para comprar presentes. Comprar à vista deve ser o mantra do consumidor. Se não tem dinheiro, a não ser em caso de doença, espere ter o dinheiro para gastar. Eu sei que tudo isso pode parecer muito chato e calculista, mas em algum momento essa loucura terá que parar e voltaremos a ter simplesmente o Natal.
Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br