Dívidas e Classe Média
Há um mês, falávamos sobre o descolamento da diminuição da Taxa Selic com as taxas praticadas pelo mercado e vê-se que mesmo passado um tempo para que as “melancias da carreta” se acomodassem, praticamente confirmou-se o que se disse. As taxas não baixam na mesma proporção e algumas como o cheque especial, uma das mais altas taxas, nem se mexeram. Acho que esqueceram de avisar as operadoras de cartão. Agora tem outra modalidade de crédito que é preciso especial atenção: o adiantamento das restituições do imposto de renda para pessoa física. Os bancos estão atrás de clientes oferecendo esta facilidade a juros de até 3,5% ao mês. Como sempre dizemos: é uma taxa muito alta. Claro que comparativamente pode parecer atraente, mas se comparado às exorbitantes taxas do rotativo do cartão de crédito ou das financeiras, os campeões. Perto do rendimento de uma caderneta de poupança, é um escândalo. A caderneta 0,7% ao mês, ou seja, cinco vezes menos do que este juro “camarada” do banco, principalmente porque a restituição é a garantia, diminuindo o risco do empréstimo. Além disso, o risco da restituição sofrer atraso, que é grande faria com que o juro sobre juro dilapidasse o valor da restituição. Se o contribuinte, por exemplo, tem 10.000,00 de restituição a receber e pegar no banco os R$ 7.000,00, o máximo que o banco permite, em seis meses terá que devolver ao banco R$ 8.605,00. Se demorar mais, se entregar a declaração em abril, por exemplo, com as demoras de praxe, malha fina, etc., poderá levar nove meses ou mais para receber. Teria neste caso que devolver R$ 9.540,00. Daí porque antecipam somente 70% do valor a receber, como forma de garantir o capital emprestado. Como sempre, atirar-se nesses créditos, somente tem sentido se o seu orçamento estiver sendo corroído por outra dívida com taxas maiores.
Outra pesquisa que saiu esta semana abordando um assunto que falamos há um mês neste espaço é ocorrência contumaz das camadas de rendimento mais baixo se alavancando, ou seja, complementando renda com dívidas. Os dados da pesquisa dizem que o consumo aumentou 6% e a renda 4%. Onde estão os 2% que o gato comeu. Chama-se dívida. Na classe C, de até dez salários mínimos de renda familiar, é aonde o nó aperta mais. Tradicionalmente, sempre foi a classe que mais sofreu com as mudanças da sociedade. Nos últimos vinte anos, a classe C foi engordada por oriundos da classe B, ao mesmo tempo em que perdeu muitos membros para a classe D. É esta classe média baixa empobrecida, que já teve fartura no seu consumo, que conheceu o que é bom, tenta manter o padrão e não consegue, recorrendo a dívidas. Mesmo as classes mais abastadas, o perfil do consumo mudou nestes 20 anos, pois segundo a pesquisa elaborada pelo IBGE, recursos usados no consumo de bens duráveis e lazer, hoje são gastos no sustento do dia-a-dia. Nesse meio-tempo houve mudanças drásticas nos usos e costumes. O que se gasta com comunicação, informática, DVD, só para citar alguns itens, nem constavam antigamente. O telefone que era compartilhado pela família de 20 anos atrás, continua lá, só que com a instalação infinitamente mais barata, mas com a conta bem mais alta. Cada membro tem ainda seu próprio telefone celular, o que não existia, assim como os gastos com computador, Internet e DVD. Cerca de sete milhões de pessoas da classe média perderam seus empregos nesse intervalo de tempo mas os custos elevaram-se bastante, não só em valores como em itens. Pagamos caríssimo por segurança, hoje em dia. A começar pelo seguro do carro. A proliferação de shopings nada mais é que um sintoma disso. E temos agora pela frente um ano eleitoral. É preciso ficar muito cauteloso com as “facilidades” que na certa virão, armadilhas travestidas de crédito, tentando dar uma folga no consumo comprimido da população, assim como no bolso dos comerciantes e industriais, formando uma bolha de consumo que estoura logo que passa a eleição, e podem acreditar que a conta sempre fica com o mesmo desavisado. O cidadão e a eleição têm uma relação igual à daquele bailarino que de cada quatro bailes, ele dança em um e apanha nos outros três.16-3-2006
Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br