Brasileiro da Crise.Crise? Sei, conheço bem.
É o nome da minha mãe. Muito prazer, meu nome é Brasileiro da Crise. Fui gerado nela.
Descendo de muitos povos, raças e credos: europeus, negros, cristãos, índios, mouros, asiáticos, judeus, filósofos, ladrões, santos, nobres falidos e uma infinidade de outros. Tudo que sou devo a eles e às suas dificuldades e tropeços na vida. Para cada um deles tem uma história diferente de como superaram as intempéries. No meu DNA está a invasão aos meus domínios por barbudos maus com seus paus-de-fogo, o enfrentamento do desconhecido ao cruzar os oceanos, as tempestades em alto mar, está a solidão e abandono num continente de selva, minha prisão e escravidão, os estupros de minhas mulheres, enganar um cara chamado Napoleão, brigar com outro chamado Hitler, expulsar piratas, passar fome na Europa, emigrar e deixar tudo para trás, lutar todas as guerras, derramar o sangue do meu irmão, trabalhar pela comida, perder tudo no jogo ou no plano econômico, ser corroído pela inflação, lutar pela ditadura, lutar contra a ditadura, ter a poupança confiscada. Essas e tantas outras marcas eu trago no meu DNA. Em cada um desses momentos, a gente sempre soube ver onde estava a escada e como colocar o pé no degrau. Pois é, eu continuo aqui e cada dia melhor. Eu sou brasileiro e como todos sabem eu tenho memória curta. Eu sempre me esqueço das coisas, principalmente as boas que fiz. Olhando assim dá até um certo orgulho ter passado por tanta coisa, vencido tantos obstáculos. E sabem porque consegui tudo isso? Porque eu esqueci que era impossível. O importante é ir em frente. Se todos recuam com medo do incerto, o mais certo é avançar. A maneira mais fácil de crescer e ocupar espaços é quando os outros encolhem e os deixam livres. As crises nos ensinam que todo jogo tem virada e que a banca muda de mãos; que coragem do leão, assim como a covardia do rato, não é estratégia, é instinto; que ninguém é sábio antes de se conhecer diante da crise; que o mundo é dos que sonham, governados pelos que agem; que ninguém fica maior enquanto definha e se esconde; mas principalmente que nosso futuro é a consolidação de nossa expectativa e que ela está sempre mudando. Eu sou brasileiro e sou muito exibido. Alguém acha que é possível pegar um baile de máscaras veneziano e transformar no maior espetáculo da terra sem se exibir, se mostrar? Existe timidez carnavalesca? Foi preciso sair dos salões e ganhar as ruas. Não fosse assim, talvez o esporte bretão estivesse sendo discutido reservadamente apenas em algum clube de Oxford Street entre um Scotch e um Ginger Ale. Pois é, mas a gente mostrou para o mundo que era mais do que isso e inundou o mundo de Pelés.
Eu sou brasileiro, e sei que as chances na vida, ao contrário dos cobradores, não ficam batendo insistentemente na porta. A hora de cantar é quando todos os outros emudeceram. É quando podem nos ouvir melhor.
Pois é, eu sou Brasileiro e filho da Crise. Meu pai? Bem, ele viaja num trem chamado Oportunidade, e dele herdei os olhos que enxergam longe.
Jackson Busato
30 de Janeiro de 2009.
20:34