Analise custo/benefício. Dê preferência à qualidade.20-8-2005
Quando se fala ou escreve sobre educação financeira, economia popular, finanças pessoais, muitas vezes pode ficar a impressão que se está imprimindo um tratado de sovinice, como se o propósito da vida fosse gastar pouco ou melhor ainda, não gastar nada. Nada disso. Evidentemente que o melhor é gastar bastante, contanto que existam estes recursos e com planejamento sejam usufruídos, para que não venham a fazer falta. O objetivo de tudo isso, na verdade, é gastar bem.
Muitos fabricantes e comerciantes colocam no mercado produtos de baixa qualidade para consumidores não exigentes, que se deixam seduzir apenas pelo preço ou mesmo que não poderiam pagar por outro melhor naquele momento. Mercado existe para tudo e para todos. É este mercado de baixo nível de exigência junto com a falta de fiscalização e corrupção que permite a proliferação destas feiras de produtos contrabandeados, falsificados e roubados. Vamos ficar na questão da qualidade para não adentrar na questão moral e ética que renderia um tratado.
Quando compramos umas baterias (pilhas) no camelô, pagamos 3 vezes menos do que no supermercado. Elas duram também menos, não se sabe se 3 vezes, mas perto disso. Analisando apenas o preço, tanto faz comprar uma ou outra, e se tivermos pouco dinheiro no bolso, ficamos com a falsificada mesmo. Só tem um pequeno detalhe: essas pilhas ao ficarem por algum tempo paradas no rádio com fones que usamos nas nossas caminhadas, vão vazar e estragar este pequeno aparelho pelo qual pagamos cem vezes o preço de um pacote de baterias. Vale a pena?
Uma maneira eficiente de ficar pobre é comprando “micos”. O melhor sempre é poupar para comprar à vista, evitando os juros que corroem o orçamento. Mas não são apenas os juros que fazem buracos. Se as altas taxas fazem com que paguemos muito mais pelo que queremos de imediato, a baixa qualidade do produto tem o mesmo efeito. Se deixamos de poupar para pagar pela qualidade em detrimento da pressa em adquirir, é provável que em pouco tempo estejamos comprando novamente o mesmo produto ou gastando outro tanto em consertos. É muito comum acontecer com produtos usados, como televisores e outros eletrodomésticos comprados diretamente, que não tem garantia nenhuma o que significa que a responsabilidade é toda de quem comprar, não tem Procom. O preço é importante mas está em um lado da balança. Do outro lado temos qualidade traduzida em uma boa marca, com tradição, oferecendo garantia do produto, com segurança.
Um outro ponto interessante a analisar durante uma compra, é a adequação do bem à nossa necessidade. Por várias razões que vão do marketing à psicanálise, às vezes temos o impulso de superestimar nossas necessidades. Não estamos falando da aquisição de um objeto de desejo, um luxo que quando o dinheiro permite é perfeitamente normal e saudável. Falamos de quem compra sempre o que há de maior e melhor sem olhar o preço, muitas vezes pagando com dificuldade por um excesso que não utilizará. O caso dos computadores é um bom exemplo. Estes aparelhos tem uma vida útil muito pequena nas nossas mãos, seja por uma eficiente obsolescência programada, seja pela velocidade dos avanços tecnológicos nesta área. Ocorre que o computador de última geração custa muitas vezes o dobro do da geração anterior e nós acabamos comprando aquele mais moderno, com periféricos, programas que nem sabemos usar. Aliás, na maioria das vezes, nossos conhecimentos não alcançam sequer a tecnologia do modelo antigo. Nós vemos pessoas com equipamentos que suportariam um estúdio de vídeo e música, usando-os para escrever textos e jogar paciência. Toda aquela tecnologia cara está lá parada, a serviço de ninguém, rendendo nada. Isso vale para quase tudo. O carro, a casa ou o lazer. A adequação às necessidades trás uma boa economia, sobrando mais para gastar depois em outras coisas.
Nós pagamos muito caro para estarmos “atualizados”, seguindo a tendência de cima, ou “fashion”, como querem os americanófilos. O celular é um exemplo emblemático. São tantas as funções oferecidas pelo aparelho que até esquecemos de perguntar ao vendedor se o monstrengo recebe e faz chamadas. Pois são essas funções adicionais que custam caro. É evidente que não estamos defendendo que você saia agora para comprar um aparelho analógico que pesa meio quilo e a carga dura duas horas, mas apenas que analise bem as suas necessidades. Pode ser que com o preço de um celular com câmera digital, dê para comprar um celular e uma camera com melhor qualidade de imagem, se ainda não tiver.
As roupas de marca são outro atrativo que nem sempre correspondem ao preço. Nós sabemos que o mesmo chinês que fabrica as grandes marcas, coloca no mercado o produto sem o selo por um preço muito menor. A diferença é o quanto pagamos pela marca. Não estamos falando de contrabando, claro , pois já seria covardia. Isso vale também para produtos de supermercado com a marca da loja. O mesmo fabricante embala com a marca do ponto de venda por bem menos, pois reduziu-se daí o custo de publicidade, entre outras coisas.
Dizem que quem tem personalidade não se importa com griffes. Aí está uma boa maneira de saber quanto vale a personalidade que sabia-se imensurável.
Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br