SANA'A
23-10-2009
Quando adolescentes e mesmo durante a juventude, tudo queremos. Não sei se é certo, mas realmente pensamos com essa clareza. O tempo passa e descobrimos que não podemos ter tudo. A clareza da juventude sofre o embaçamento por obstáculos intransponíveis, então. Passados mais uns anos e descobrimos que sempre tivemos tudo, exceto essa consciência. Quanto vale esse naco de sabedoria? Vale exatamente todo o dinheiro que você acha que precisa para ter paz de espírito. O Dinheiro, sempre o dinheiro... extremamente importante quando falta. Dentre os vários tópicos que um cardiologista elencaria como essenciais para levar uma vida saudável evitando o enfarte de cada dia, certamente está o equilíbrio financeiro. Nosso cardiologista não diz que precisamos ser ricos. Fala em qualidade de vida. Até porque ser rico não significa organização financeira, aliás, muitas vezes é caótica a situação. Estamos divididos em três tipos nas nossas aspirações: ser, ter e parecer. Há os que buscam ser. Empenham todos seus esforços no desenvolvimento pessoal, com foco no crescimento intelectual, cultivando seu potencial humano, podendo ter efeitos econômicos enormes ou nenhum, mas mesmo assim, colaterais. Outros dedicam sua existência a ter. Perseguem o dinheiro com gana, sem desviar seu olhar para coisas que não engordem seu porquinho. Tudo passa a ser secundário: Família , amigos, lazer, saúde, vida.... Sentimento dominante: ganância. O terceiro tipo é o que não é algo e nem tem nada, então ele dá um jeito de parecer ter. É fácil, o banco financia. É possível morar bem, andar num bom automóvel, viajar, viver muito acima das posses. Por algum tempo. E é bom! É impressionante como nos viciamos em vida de rico. O sujeito mal saca o crédito no banco corre pra loja e sente que nasceu para aquilo. Parece que foi criado entre a Wall Street e a 5ª Avenue. Basta uma excursão num saveiro e a vida já não tem graça em terra firme. Baixou o IPI? Carro novo já, mesmo comprometendo a renda por 5 anos. Como disse, isso é fácil e o banco financia. O difícil é cair na realidade. Eu disse cair? Despencar para a realidade, então. Se é difícil ficar rico, ser pobre é pior. Com tantos apelos para gastar fica muito difícil manter equalizadas a receita e a despesa. As facilidades oferecidas em produtos de crédito para consumarem a sedução do marketing são irresistíveis. O produto final de tudo isso é o famoso astro nacional: o Endividado. O mais bizarro disso tudo é que Governo, bancos, comércio, serviços, todos disputam a tapas o crédito que vem grudado no CPF do indivíduo, tratam o ilustre cidadão com tapete vermelho e o conclamam a exercer seu direito divino às benessses do sistema que Deus criou para todos. Bem, até que um dia ele deixa de pagar algumas prestações e aí o novo meliante vai sentir o peso da mão desse sistema, afinal, caloteiro não tem que ficar por aí gastando o que não tem e se fingindo de rico. Quando os níveis de inadimplência começam a preocupar, surgem os projetos até risíveis, como o de um banco que queria fazer cursos de educação financeira para seus clientes, onde dificilmente explicariam o perigo de tomar dinheiro emprestado numa instituição que comete spreads indecentes. Eu imagino que em seguida veremos traficantes dirigindo clínicas de recuperação de viciados e bicheiros combatendo a compulsão no jogo. A escola segue, no entanto, sem educação financeira no currículo. Não há espaço, dizem. Mas coisas importantes como o nome da capital do Iêmen, continuam sendo ensinadas.
O nosso bem-estar depende , muitas vezes de pequenas coisas, como alguns princípios econômicos enraizados na infância, neste caso, na educação fundamental.
Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br