Os juros que não baixam
 
 

Sempre que se aproxima a reunião do COPOM para definição da taxa Selic, os meios de comunicação começam a produzir alvoroço em torno do assunto, como se alguma coisa muito especial ou diferente pudesse sair dali. Em primeiro lugar qualquer redefinição da taxa é tão pequena em relação ao todo que praticamente não afeta em nada o achaque do dia-a-dia. Em segundo lugar a diferença da taxa selic e as taxas praticadas pelo mercado é tão grande que é até difícil fazer uma associação. Serve mais como tendência. Um bom exemplo é o que ocorreu agora em Janeiro último. A taxa baixou de 18% para 17,25%, ou seja, 0,75% ao ano.  Apesar disso algumas taxas, como o Crédito Direto ao Consumidor e empréstimos pessoais dos bancos, subiram. Outras permaneceram inalteradas. Alguns produtos financeiros baixaram, é verdade, acompanhando a tendência, mas muito pouco. O resultado é que na média, para a pessoa física, a taxa decresceu 0,01%, o que convenhamos, é nada. Já a taxa média das operações financeiras das empresas elevou-se no mesmo percentual, 0,01%. Além de irrisório, quebra a tendência. Essa divergência acontece sempre que motivos outros que influenciam na taxa de juros que pagamos sofrem alterações. Neste caso, por ser início de ano, concentram-se muitas contas a pagar, como dívidas do Natal, despesas escolares, IPVA, IPTU, viagens de férias, e isso tudo gera uma grande demanda por crédito, fazendo com que eleve-se o custo do dinheiro, ou seja, o juro. Outro fator determinante da taxa inflada é a inadimplência típica desta época justamente pelos mesmos motivos que aumentam a demanda por crédito e da própria taxa que aumenta a inadimplência que aumenta a taxa que...
Nós deveríamos nos preocupar menos com assuntos de governo, com macroeconomia e mais com nossos assuntos, mais afeitos a microeconomia. Macroeconomia, como nós sabemos, é um assunto complexo e deve ser tratado por especialistas. No caso do Brasil, médicos, como o Dr. Palocci e motoristas de táxi, que sabem tudo.
Apesar das taxas escorchantes, o brasileiro médio continua a se endividar por meio de  produtos financeiros incorporados ao seu disponível como se renda fosse. Houve um aumento de demanda financiada via empréstimos vinculados. O pessoal acha baratíssimo juros de 2,5 a 3 % ao mês. É mais baixo que outras modalidades, mas está longe de ser barato. A  população com renda de salário mínimo, já descobriu que pode se financiar com cartão de crédito. Seria hilariante se não fosse triste. E não é apenas pela compra com prazo para pagar que o cartão proporciona. Estas pessoas estão incorporando o crédito do cartão na renda e entrando no rotativo,  pagando o segundo maior juro do país com os juros mais altos do mundo. Qualquer coisa como 10% ao mês. Por enquanto a inadimplência deste pessoal mantém-se nos mesmos níveis que outras faixas de renda mais altas, já que o percentual de endividamento sobre a renda ainda é pequeno. Por enquanto. Os  banqueiros sabem que o indivíduo de baixa-renda é bom pagador, já que seu nome limpo é o único patrimônio a oferecer pelo crédito concedido. Os maus pagadores eles conhecem bem. Mas a armadilha está montada. Perder o controle financeiro pessoal com os juros de um cartão pode acontecer independentemente da vontade de pagar em dia ou do bom caráter. É dançar no gelo. Qualquer deslize e o sujeito estará no chão. E se ele não pagar, não duvide que a culpa dos juros não acompanharem a queda da taxa selic seja debitada na conta deste inadimplente esbanjador. A única razão que jamais darão para a manutenção das altas taxas praticadas são os lucros dos bancos.

16-2-2006
 

Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br