A Mesada


                                                                                                           21-1-2006
 

Quem tem filhos tem dúvidas (e dívidas).  Uma das dúvidas mais recorrentes é com relação à instituição da mesada. Afinal, é recomendável dar dinheiro regularmente a uma criança, como se salário fosse? Essa mesada, se instituída, deve ser vinculada a alguma tarefa específica, ou a um esperado grau de desempenho nas atividades escolares? A mesada deve ser cortada em caso de não cumprimento, ou mau comportamento?
Em primeiro lugar, é preciso salientar que a mesada, quando utilizada corretamente, é apenas um dos instrumentos disponíveis de educação financeira. Instituída isolada, sem nenhum critério, não tem efeito educacional. Deve ser acompanhada de informações e algumas sugestões sobre escolhas intertemporais como poupança e sobretudo juros.
A mesada será o primeiro contato da criança com o dinheiro, por isso é tão importante a forma como isso se dará, pois essa primeira impressão gravará no cérebro em formação, e sua relação com o dinheiro nesta fase muito provavelmente perdurará ao longo da sua vida. Muitas vezes os pais , por zelo ou outro motivo, querem passar aos filhos que ganhar dinheiro, é muito difícil, é extenuante, é fruto de trabalho árduo, chato. Isso é jogado para a criança, não raro, como chantagem emocional. Ou então ensinam que ganhar dinheiro é feio, é ganância, se o vizinho tem mais dinheiro é porque é desonesto. Isso, obviamente terá desdobramentos e bloqueios futuros. Não será surpresa se tiver dificuldades financeiras posteriormente. O fato de ganhar dinheiro deve ser passado como uma coisa absolutamente normal, já que ninguém vive sem ele e uma decorrência natural, fruto do trabalho bem feito e que se gosta de fazer.  Sempre vem aquela dúvida sobre a necessidade de ligar a mesada (benefício) a uma tarefa (custo), para ensinar que dinheiro não cai do céu. A rigor, a criança já tem uma atividade: ir à escola. Alguns psicólogos não vêem com bons olhos esse vínculo da mesada a tarefas extras, até porque o dia que a criança não precisar de dinheiro poderá se negar a executar a tal tarefa e nada modificará sua vida. A autoridade dos pais estará questionada. Se a idéia é esta, é melhor premiar pelo extra, pelas notas melhores. Isso sim, dá resultado. Estudos realizados com crianças inglesas mostram que as que são premiadas com mimos pelas boas notas na escola tem os melhores desempenhos.
A mesada vai, em primeiro lugar, proporcionar a manipulação do dinheiro, o reconhecimento das cédulas, a mágica de que aquilo traz soluções, realiza desejos. Mostra, no entanto, que é finito, que sua utilização tem que ser distribuída pra durar o maior tempo possível. Desenvolve a matemática através das transações, comprando, recebendo  o troco. E se sonhar um pouco mais alto, com alguma coisa que sua mesada não alcança, fatalmente aprenderá a noção de poupança, conseqüentemente aprenderá sobre juros, ou o funcionamento do dinheiro no tempo. Ensinar sobre juros, é ensinar a criança a ter paciência chinesa. Nem os chineses nascem com ela. Tem que ser ensinada e praticada. Na verdade é muito simples explicar o que são juros: “Quem sabe esperar, ganha. Quem tem pressa, paga”.
Especialistas em Neuroeconomia, uma nova ciência, que se utiliza inclusive de tomógrafos para colher as reações do cérebro a estímulos relacionados a aspectos econômicos, recomendam o aprendizado sobre juros entre os 4 anos e os 12 anos, segundo experiência realizada com crianças deste idade, que numa próxima oportunidade relatarei, mas onde basicamente testava a capacidade de esperar, sendo para isso recompensada, caso contrário, onerada.
Em suma, é que quando antecipamos um benefício, de que natureza for, pagaremos por isso, e a isso chamaremos taxa de juros. Quando postergamos um benefício, receberemos por isso a mesma taxa de juros. Por toda a vida esses princípios estarão presentes, mesmo fora da vida financeira, daí a importância da criança absorver esses conceitos que tratam de decisões intertemporais. As crianças da experiência foram acompanhadas até a juventude e o estudo demonstrou que aquelas que conseguiam esperar, ou seja, ganharam a taxa de juros, tiveram mais sucesso na escola, menos problemas familiares e com drogas. Essa experiência demonstrou também a necessidade da presença do pai na educação. Crianças com pai em casa tendem a ser mais tolerantes e mais pacientes.
O resumo desta ópera é que estes estudos todos demonstram que o melhor que podemos fazer por nossos filhos, a melhor herança, é a educação financeira, a fixação destes conceitos de que falamos. Hoje, já é possível afirmar que nossos filhos chegarão facilmente aos 100 anos de idade, em função dos avanços da medicina. Infelizmente, a previdência social, as ciências econômicas, não avançam na mesma proporção, e isto fará com eles vivam num mundo inóspito deste ponto de vista, menos empregos, sem aposentadoria. Mesmo que seja deixada uma herança substancial, ela pode fugir rapidamente das mãos de quem não tem preparo, daí a insistência nesse ponto da educação como legado.
 
 

Jackson Busato
Economista
jackson.busato@terra.com.br